Submarino amarelo

O relógio marcava 22:34h no exato momento em que entrei no ônibus. A espera já havia sido demasiadamente cansativa, tendo em vista que este era um horário de fim de expediente para muitos, portanto, corri os olhos pelos poucos assentos vazios que restavam. Gosto de sentar-me à janela, sempre gostei de observar a vida fora daquele lugar asqueroso, pois, diga-se de passagem, o transporte público no Brasil é algo humilhante. Logo avistei um cantinho recôndito, esquecido. Apressei me ao passar pela roleta e corri de encontro ao cativante e nostálgico banco alto. Preparava-me para mais uma longa viagem de volta para casa recostando a cabeça na janela quando, não sei porque, perdi a concentração ao observar uma menina. "Menina..." rio-me sem motivação aparente. Ela aparentava ter no máximo 21 anos e tinha o olhar triste e desesperançoso. Parecia carregar as dores do mundo em um olhar. Desviei o olhar e tentei me ater ao movimento na rua, mas algo me intrigava sobre aquela garota. Passei toda a viagem observando-a. Ela parecia estar com os olhos colados na rua, e eu com os meus colados nela. Não nos distraimos com o sacolejo do ônibus, nem com as conversas paralelas, nem com os gritos de "Motorista, passou o ponto!!".
De repente, vejo algo brilhando em sua face e, quem dera fossem seus olhos, mas não, ela estava chorando. As lágrimas escorriam sem cessar e ela não fazia o menor esforço para contê-las. Acho que nunca havia presenciado uma cena tão emocionante em minha vida. Tive ímpetos de sair de meu lugar e ir abracá-la.
-Ela vai pensar que sou louco.
Mas e se ela só estiver precisando de um abraço, um consolo.
- Vá logo homem, deixe de ser covarde.
Eu já havia perdido a minha chance, enquanto me questionava e discutia comigo mesmo, a menina se preparava para descer. Passou uma alça da mochila após a outra, olhou no relógio, 23:13h. Levantou-se e saiu.
Na esperança de ter um instante de atenção dela, um olhar que fosse, a observei fora do ônibus. Ao passar, ela me olhou e sorriu.

Acho que no fundo ela sabia.

Ela, era eu.

1 Ouvintes:

Paju Monteiro disse...

Que encanto. Onde estavas?

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