Tão pessoal e dolorido.

"O trigo, que é dourado, fará com que eu me lembre de ti. E eu amarei o barulho de vento no trigo..."

Seus desconhecidos cabelos dourados não vivem mais. Mesmo eles agora estão mortos. Viraram pó. Tudo agora é solidão.
Não há riso, não há choro. Apenas a voz do silêncio. E o cheiro de sangue.
Este cheiro que cisma em impregnar minhas narinas.
Eu sempre o imagino ser devorado por corvos.
Maldito Van Gogh.
Acho que finalmente é hora de dizer adeus, meu grande amigo.

Adeus.

Pedro, o que é poesia?

Pedro sentia seus olhos queimarem
A alma esvaia-se em seu arfar e gozar
Cada movimento não ensaiado
Novas perspectivas de amor

Das palavras e da colheita.

Dizem por aí, uns sujeitos indefinidos, que um jovem agricultor, de uma cidade longíqua, lá no interior, apaixonou-se por uma bela moça.
Bem apessoada e de fino trato, a jovem donzela vivia às voltas com seu livro de poesias. O agricultor, pobrezinho, só conhecia terra e sementes, o arado que o cavalo puxava com força.
Era tempo de plantio, de palavras e de amor, sol para um, chuva para outro. Equlíbrio que a natureza havia de conceder.
O jovem agricultor bate à porta da moça que atende cautelosa e o ouve dizer:

    Chegaste de repente
    E sem aviso roubaste meu coração
    Com teu olhar reluzente
    E com teu livrinho nas mãos

    Morena da pele de porcelana
    Tal qual meus olhos nunca viram igual
    Quis fazer-te minha dama 
    E proteger-lhe de todo mal

    Porém o destino me foi cruel
    Fez-me pobre, possuidor de nenhum vintém
    Mãos calejadas escrevem-lhe ao léu
    Estas sinceras palavras que valor algum têm

    Mas guardes na memórias
    Este pobre jovenzinho que te queres tão bem
    Talvez sirva de história
    Aquele que te bem quiseres também

Os olhos da jovem donzela iluminaram-se e ela retrucou:

    Meu jovem agricultor
    Pareces não conhecer bem teu ofício
    Decerto o fazes com amor
    Mas exige-lhe também sacrifício

    Não percebes em que tempo estamos?
    A vida, meu bem, sempre se ajeita
    Já passaram-se dois anos
    Já é hora da colheita

Dizem, os mesmos sujeitos indefinidos, que a jovenzinha largou a família rica para viver com os pés descalços na terra, com o poeta agricultor. Que eles têm uma vida sossegada, sem luxos, mas com muito amor.
Se a história é verdadeira? Esta pergunta eu também me faço. Prefiro acreditar que sim, que o amor pode vencer as barreiras enfim.

Um texto sem título algum.

Eu vivo em um mundo cheio de desesperança.
Cheio de ódio, mágoas e torpor.
Onde avôs abusam de suas netas.
E melhores amigos se vão sem cerimônia alguma.

Eu vivo em um mundo onde as pessoas más tem tudo.
Onde o mal é recompensado com glória.
Um mundo onde se mata e se morre.
Sem amor algum.

Eu vivo em um mundo onde as pessoas boas se isolam.
Por puro temor de tornarem-se ruins.
Onde a solidão impera.
E onde a solidão mata.

Eu criei meu mundo, onde não há portas nem janelas.
Nem corredor ou corrimão.
Onde não há nada além de memórias.
Onde não há nada além da solidão.


Postado originalmente em Seu sopro de insipração diária.

Desatinos de Sofia.

Escrevia:
"Pensava em solidão, vivia solidão e queria solidão.
Queria mesmo?"
Deixes de bobagem Sofia, ninguém quer solidão. A solidão é que é uma senhora oportunista. Aproveita-se de jovens tolas como tu.
Permanecia:
"Há solidão na vida. A solidão da morte, a buscar companhia."
Sofia, acordes. Não vês que só estás a perder tempo? Como podes estar só se estou aqui contigo?
Em palavras se esvaia:
"A morte com sorte, hoje encontra companhia."
Ah Sofia, aborreces-me com estes desvarios.
Com ajuda do cianureto,
Sofia dormia.

Trigo.

Ser raposa é o há de melhor em mim.
Esta insistência tola em criar laços.
Em negar os olhos de pessoas grandes.
E esperar.
Esperar que o vento acaricie o trigo.

Makes life easier.

Poeminha bobo e sem-graça.

Tristeza chegou.
Como de costume, sorrateita.
Perigosa.
Mandei embora.
Tô de caso com a felicidade.

Melancolia carnavalesca.

Ele a sentia em seu âmago.
A lhe amargar o espírito.
Maldita, maldita.
Ele se repetia.
Maldita melancolia.
Queres ver como dou fim a ti?
Tirou-a do coldre.
Sentiu o aço frio encostado na têmpora direita.
Morra desgraçada, morra.
Ecoa o vazio.
Impera a apatia.
Escorria a melancolia.
Presa ao sangue e à massa encefálica de Pedro.

Pessoalidade desnecessária.

O que queres que eu te faça.
Senão que te espanque.
Que queres que eu te seja.
Senão teu algoz.
Que queres da vida.
Senão solidão.
Descompasso constante.
Empacado frente à imensidão.



Solidão, sempre solidão.

O corpo.

Parecia mais um dia normal. E quente. Resolvi refrescar-me na piscina pública da cidade, esfriar o corpo e a mente cansada. Tudo acontecia como de costume, procurei o meu armário, de número 230. Estava ocupado, eu sabia que deveria ter saído de casa mais cedo. Tive que contentar-me com o 225. Despi-me e tranquei minhas coisas no armário. Ao entrar no ambiente da piscina, os mesmos corpos forçados ao máximo em horas desperdiçadas em academias e clínicas de estética. E os corpos relaxados. Estes sem dúvida são os piores.
Não pensei duas vezes ao mergulhar de cabeça na água, talvez ao emergir o ambiente fosse outro. Logo que voltei à superfície eu a avistei.
As gotículas d'água prendiam-se ao seu corpo fazendo refletir estonteantemente a luz do sol. Mal podia crer no que viam meus olhos, um corpo tal qual nunca havia dantes visto. Torneado com perfeição, curvas voluptuosas que excitavam meus sentidos. Não encontrava forças para conter-me, mantinha o olhar fixado nela, e em seu biquini vermelho. Tinha receio que ela me visse ali, a espreitá-la. Mas ao mesmo tempo este receio aumentava a minha excitação.
Então ela se virou, mergulhou e veio em minha direção.
Os cabelos negros surgindo a minha frente, os grandes olhos cor de amêndoa mais pareciam jóias, cujo valor incalculável. Ela ficou ali, parada. Seus olhos pareciam penetrar-me, desvendar meus segrados mais íntimos.
Num ímpeto inexplicável, meu corpo se faz submergir, olhar através da água aquele corpo divino.
Abro os olhos, ela não está lá.
Mesmo após emergir, onde quer que pairassem, meus olhos não a encontravam.
Teria sido este mais um delírio, uma alucinação? Eu sabia que elas viriam, mas não sabia que seriam tão reais.
Então, num relance, aquele biquini vermelho na rampa de saída. Nado em direção a uma borda desocupada da piscina, ergo-me com certa dificuldade.
Tento correr em direção a rampa, mas meu corpo parece pesar mais que os 72kg usuais. Um mal súbito me acometeu e eu me recordo da dor que senti ao bater com a cabeça no chão.
Ao abrir os olhos fui tomado por uma agonia imensurável, a luz era forte demais. Mas como ser humano que sou, acostumei-me logo com aquela luz. À princípio pensei estar de volta ao sanatório, aquelas paredes super brancas e aquela luz fluorescente. Mas havia algo errado, não haviam enfermeiros ou médicos. Nem outros pacientes.
Levantei-me. Tuoque havia naquela sala era uma mesa de ferro, sobre a qual eu estava deitado, e eu, vestido com uma camisola manchada de sangue, não havia portas ou janelas. Minha cabeça ainda me incomodava, passei a mão sobre ela e descobri que aquele sangue na camisola era meu.
As paredes fazem um barulho estranho, estão ruindo. Agora estou aqui, no meio destes escombros. Tudo que vejo no horizonte são resquícios de algum incêndio, o campo está todo queimado, as árvores, as casas. Tudo queimado.
Ao longe posso ver uma dama de vestido vermelho. É ela, eu sei que é ela. Ela se aproxima tão rápido que mal tenho tempo de esconder o sangue em minha... Não estou mais de camisola, visto agora um terno preto, com gravata e um lenço vermelho-sangue no bolso.
Perco-me novamente naqueles olhos. A única coisa que consegui ouvir foi:
"Eu sabia que você vinha logo."


Afnal, eu não passava de um corpo caído em uma piscina pública. Cuja alma se esvaiu em um rastro de sangue cor de biquini vermelho.